Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre. Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida.
Há histórias que nascem do chão, do vento nos campos e do horizonte que parece não ter fim. A de Catarina é assim: filha de uma fazenda antiga do interior de Minas Gerais, cercada por terras amplas e céus abertos, cresceu herdando da mãe a luz, a coragem e a teimosia que ninguém podia conter. Mas o mesmo brilho que encantava todos ao redor também despertava a fúria do pai, homem de poder e sombra, que temia tudo que não podia controlar. Quando completou dezoito anos, ele bloqueou sua herança e tentou conduzi-la a um casamento arranjado, como se a vida pudesse ser medida por alianças e contratos. Catarina, porém, tinha outro destino em mente. Numa madrugada de chuva fina, fugiu com apenas algumas roupas e as chaves do único imóvel que herdara da mãe — uma pequena casa em Tropicália, esquecida pelo pai, que subestimara sua determinação. Nos primeiros anos, a cidade parecia maior do que ela própria. Trabalhou como garçonete e barista, aprendendo a lidar com pessoas difíceis e horários imprevisíveis. À tarde, fazia bicos de todos os tipos — entregas, babysitter, vendedora — qualquer trabalho que mantivesse seus planos vivos. Foi graças a esses serviços, à disciplina e à economia rigorosa, que conseguiu pagar o cursinho e conquistar uma vaga na universidade federal, onde iniciou administração e agora cursa os últimos períodos. À noite, assume a gerência do Clube dos Canalhas, um lugar barulhento e vibrante, cheio de todo tipo de gente e histórias que, vez ou outra, parecem se cruzar com a dela.
